sábado, 16 de julho de 2016

O almoço que não cheguei a comer


"Fui convidado para um almoço, hoje, em casa de interposta pessoa. No almoço, soube de antemão, estaria o embaixador da UE na Guiné-Bissau, o português Victor Madeira dos Santos. E estava.

Eu também fui, mas, confesso que não estava preparado encaixar tamanha falta de conhecimento do embaixador sobre o que realmente se passa na Guiné-Bissau. Não tinha conhecimento de um incidente grave envolvendo nacionais de países da UE, passado há um mês, mais coisa menos coisa num badalado restaurante de Bissau; 'desconhecia' mesmo (pela estupefacção que mostrou) que a representação de que é o rosto número 1 se prepara para subir o muro da delegação em 1,60 mts e colocar dois portões. Está a leste, este embaixador...

Terrorismo - ou o medo do mesmo, a quanto obrigas! Mas tudo isso não foi nada em face do que se seguiria. Chegámos ao comprado (ou será vendido?) acórdão do nosso famosíssimo Supremo Tribunal de Justiça.

Para o embaixador da UE "o acórdão está feito, e bem feito! Acabou", disse arrogantemente. Aquilo soou-me a tamanha desonestidade, puro neocolonialismo ou um reles aproveitamento da incapacidade do nosso STJ (perdão, do STJ do JOMAV). Ou seja, para não ser tomado como personna non grata prefere alinhar com a canalha.

"O Victor Madeira dos Santos, embaixador da União Europeia na Guiné-Bissau, conhece por acaso a nossa Constituição?, ou está a gozar na minha cara?"
- "Eu sou jurista!", disse. A própria UE e os parceiros bilaterais já declararam o congelamento das ajudas à Guiné-Bissau, e vem agora este 'jurista' travestido de aliado dos golpistas dizer tudo isto na minha cara? Nem que fosse o Papa...

Irritado, questionei o embaixador sobre o que teria mudado para este acórdão ser diferente do acórdão Nr 1/2015; perguntei se sabia que se nomeia um primeiro-ministro na Guiné-Bissau "TENDO EM CONTA OS RESULTADOS ELEITORAIS". Disse qualquer coisa imperceptível e que agora não interessa para nada.

A senhora sentada na cabeça da mesa, presumo que espanhola, sorria. O que fiz? Levantei-me e disse: "Não vim cá para isto, eu fui convidado para almoçar e não para estas merdas." Acto contínuo pedi licença - e desculpas - ao dono da residência, também alto funcionário da UE, e saí porta fora.

Muito sinceramente, penso que isso pareceu ao embaixador uma insolência de um simplório e de um ignorante do Terceiro Mundo. Mas eu disse-lhe o que pensava. Disse-lhe a verdade. Cada um vai ao que é seu...

Há um provérbio na Serra Leoa (país que conheci, infelizmente, como um matadouro a céu aberto) que diz: "Uma pedra debaixo de água não sabe que está a chover". Alertei o embaixador para as consequências desta decisão do STJ, e para o perigo que os cidadãos da UE, que ele tão mal representa, correm na Guiné-Bissau.

Guineenses: Há que defender o País, o País corre perigo, o País está a ser ameaçado, e tudo isso é injusto."

E se querem que vos diga, estou para saber o que foi o almoço...AAS