sábado, 12 de novembro de 2016

Um País de alto risco


Hoje, uma altercação na estrada, provocada pelo motorista de uma carrinha pertencente à embaixada do Senegal, mobilizou agentes da Guarda Nacional e da Polícia de Intervenção Rápida. E elementos senegaleses pertencentes à ECOMIB deram um empurrão. Estou vivo e (relativamente) seguro em casa de um casal amigo.

Para quem conhece a rua de Moçambique, mesmo junto à 'garagem' existe um buraco do tamanho do meu carro, e com carros parados nas duas bermas, é quase um milagre livrar o enorme buraco e não bater nos carros estacionados. E foi ali mesmo que a carrinha da embaixada do Senegal decidiu avançar com toda a velocidade sobre o buraco, mesmo vendo que o meu automóvel estava com dificuldades.

Assim que passou por mim e reparei que a matrícula é CD, pensei que pudesse ser uma situação de emergência. Qual quê. Passou por mim e estacionou logo de seguida, entrando no contentor...de um senegalês. Aquilo irritou-me, cheirou-me mesmo a provocação, ainda que barata. Parei e fui pedir-lhe satisfações, se isso era modo conduzir.

Quando lá cheguei e comecei a falar - tinha o meu gás pimenta na mão direita e ainda em segurança - tentando saber quem era o motorista, o 'pendura' saiu discretamente da viatura e manietou-me durante vários minutos, enquanto lhe pedia que me soltasse. Agrediu-me, como mostram as imagens mais a baixo. Um amigo, que assistia a tudo do outro lado da estrada (assistiu, contou-me depois, à maluquice do motorista senegalês naquela manobra arriscada e tola) veio em meu socorro.



FUI AGRDEIDO POR ALGUÉM AFECTO À EMBAIXADA DO SENEGAL, E PODIA ACABAR ESPANCADO E SABE-SE LÁ QUE MAIS...

Afastaram-me do contentor, mas as provocações continuaram quer do meu quer do lado deles. De repente, vi um deles entrar no contentor e sair com uma taser (arma de choque) nas mãos, e chegou mesmo a activá-la (há testemunhas). Aí, decidi investir. Saquei a minha garrafa de gás, dei quatro passos e disparei. Duas vezes, mais para intimidar. Eles estavam já dentro do contentor e as únicas pessoas atingidas foram dois amigos meus (a quem peço desde já desculpas) e a senhora minha Mãe que, alertada por terceiros, apareceu por lá.

Meti-me no meu carro e abandonei a zona. O pior viria a seguir. Um amigo telefona-me dez, quinze minutos depois: "Não venhas para estes lados que a Guarda Nacional está cá à tua procura." Uns minutos depois recebo uma sms: "A PIR (Polícia de Intervenção Ráida) está à tua procura e estão armados com AK-47. Não saias à rua, estão só a dizer que é a ti que eles querem." Pois, também me pareceu...

Agradeci e fiz três telefonemas. Pediram-me um tempo mas todos eles contactaram. E foram unânimes: Tanto na PIR como na Guarda Nacional "o comando não está ao corrente dessa missão." Gelei. Mandar mesmo investigar. E o que me fizeram saber, congelou-me: O pessoal da embaixada, em conluio com os do contentor, contactaram compatriotas seus pertencentes à ECOMIB para, assim, chegarem a elementos das duas forças acima supracitadas.

E eu juntei dois mais dois. A ECOMIB não me pode ver à frente, desde que denunciei, com imagens, que os militares senegaleses desta força oeste-africana vendiam água engarrafada todos os dias ao pessoal senegalês desse mesmo contentor. A venda parou, e quem sabe, talvez o façam agora mas noutra freguesia...

Mas como a ECOMIB não podia prender-me, chamaram os 'amigos'. Eu também os tenho.

Quero aqui alertar a Liga Guineense dos Direitos Humanos, para a facilidade que é alguém ser raptado neste País, podendo até ser brutalmente espancado (sim, porque se não foi em flagrante delito, se não há um mandado emitido por um juiz, porque raio andam forças policiais à minha procura - e fortemente armados - num sábado e quase de noite?).

Quero agradecer à mesma liga ter mencionado, no seu relatório, outro caso que comigo aconteceu e foi literalmente 'esquecido'. AQUI:



Páginas 99 e 101 do relatório da LGDH

Só de pensar no que fariam caso me tivessem apanhado...cala-te boca. A verdade é que as operações foram suspensas - pelo assim me disseram - mas eu conto fazer queixa. As fotografias mostram que quem foi agredido FUI EU (e nem tinha usado o gás). Vou lutar pelos direitos e a minha integridade física está agora confiada à da embaixada do Senegal na Guiné-Bissau, e das baionetas e canhões da ECOMIB. Boa noite a todos e que o vosso Deus abençoe a Guiné-Bissau.