quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

“Nô djunta mom pa Fidjus di Tchom riba cassa”


Discurso do Coordenador Geral do Movimento Nacional Cívico “Nô djunta mom pa Fidjus di Tchom riba cassa”, Dr. Fernando Gomes, na Cerimónia Solene de lançamento da Petição Pública pelo Regresso à Guiné Bissau dos cidadãos guineenses ainda no exílio.

Ilustres convidados,
Caros concidadãos,
Minhas Senhoras e meus Senhores.

Há ainda irmãos, amigos, políticos altamente competentes e que fazem falta ao País e que estão impedidos de regressar à Guiné-Bissau, sua Pátria, mantendo-se obrigados ao exílio político no exterior.

Mas, caros Amigos, permitam-me o lamento.

O exílio é uma situação absolutamente inaceitável em qualquer país.

O exílio é a expulsão da pátria, é o desterro, é o degredo.

Viver no exílio, e posso afirmá-lo pela minha experiência, é um sentimento de perda e de vazio constante. Podemos até estar junto de amigos e familiares, mas o exílio faz nascer em nós uma saudade especial. A saudade dos que ficaram para trás, a saudade da nossa família e dos amigos, a saudade das ruas da nossa terra, a saudade do Pindjiguiti que clama o nosso regresso a todo o momento.

O exílio é uma manifesta violação dos direitos humanos, cuja carta estabelece, de forma inexorável, entre muitos outros, o direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal, o direito a não ser submetido a tortura, nem a penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes, o direito a não ser arbitrariamente preso, detido ou exilado, o direito de livre circulação e o direito de não ser expulso do país.

Estar exilado é viver o sofrimento de querer regressar e não poder fazê-lo.
Estar exilado é, como dizia Stefan Zweig, um “não sei para onde ir”.

Meus Camaradas
Estimados Jovens aqui presentes

É comum falar-se em exílio como sofrimento, dor, perdas, luto. O exílio é tudo isto. Mas é também aprendizado, eliminação de fronteiras, ampliação de horizontes.

No exílio, cabem a morte e o nascimento. Ver o mundo inteiro como uma terra estrangeira possibilita a originalidade da visão. A maioria das pessoas tem consciência de uma cultura, um cenário, um país; Os exilados têm consciência de pelo menos dois desses aspectos, e essa pluralidade, dá origem a uma consciência de dimensões simultâneas, uma consciência que – para tomar emprestada uma palavra da música, – é contrapontista.

O exilado é, ao mesmo tempo, o sedentário e o nómada. Como dizia Georges Radkovsky: “Ora um ora outro, ora um e outro, ficando ao solo pela raiz e dela extraindo a existência, mas também escapando pelos horizontes rasgados por sua marcha errante, harmonizando-se com a horizontal da terra, sob os signos da separação e da amplitude”.

Homens e mulheres que provém, homens e mulheres do porvir.

Como dizia Edward Said: «o exílio nos compele a pensar sobre ele, mas é terrível de vivenciar». Ele é uma fratura incurável entre um ser humano e o seu lugar natal, entre um eu e seu verdadeiro lar.

Sua tristeza essencial jamais pode ser superada. As realizações do exílio são permanentemente minadas pela perda de algo deixado para trás para sempre.

O exílio é, segundo Edward Said, irremediavelmente secular e insuportavelmente histórico, é produzido por seres humanos para outros seres humanos, é uma condição criada para negar a dignidade a identidade e a liberdade das pessoas. Nesse sentido o exílio não pode ser posto ao serviço do humanismo.

Na realidade todo o exilado é um náufrago que luta por sobreviver num território estranho onde o desespero, a aniquilação e o silêncio se fazem presentes.

Existem muitas Estórias e Histórias que apresentam o exílio como uma condição heróica, gloriosa ou romântica, e esquecem, porém, a dor da orfandade oculta em seu interior.

No âmago da sua solidão o exilado sente, no silêncio do seu ser, o verdadeiro destino da existência humana.
O exílio é uma angustia e uma condição que a maioria das pessoas raramente experimenta em primeira mão.

Por isso, pensar que o exílio é benéfico é banalizar suas mutilações, as perdas que infringe aos que o sofrem, a mudez com que responde a qualquer tentativa de compreendê-lo como “bom para nós”.

Caros Compatriotas

É com o sofrimento dos homens que se deve ser solidário: o menor passo no sentido de diverti-los é um passo para aumentar o sofrimento.
De inevitável o exílio acarreta a perda total de referências políticas e do direito de pertencer a algum tipo de comunidade organizada, a privação do espaço de ação e do discurso e, consequentemente, a negação da possibilidade de luta pela liberdade.

Logo, o exilado e desterrado são lexemas de etimologia próximo, pois dizem respeito «à perda de algo próprio ou que pertence naturalmente a pessoa: a terra, a pátria, o país natal, o lugar de origem».

O exílio faz abortar este movimento e destrói para retomá-lo na estranheza do não familiar. Daí sua dimensão de traumatismo. Ele se apresenta como um tempo de inércia e contemplação que emerge após a tormenta, o naufrágio e a catástrofe, propõe o desafio do que podemos construir a partir da perda, da desilusão, do desencorajamento, da derrota.

Se de um lado há futura, rejeição e renúncia, de outro ele incita à força, a capacidade imaginativa e criadora daquele que o experimenta, implicando, também, sutura, reconstrução e recomeço.

O quotidiano dos desterrados, como demonstra Denise Rolemberg, é marcado pela desorientação, as dúvidas, as certezas, as angústias, as mitificações, o vazio, o medo, a loucura, a morte, o gueto, a sobrevivência, o problema da documentação, o trabalho, o estudo, as transformações, a reconstrução de caminhos, enfim, as redefinições de identidade.

Caros Concidadãos

É por isso que chegou o momento de passarmos das palavras à ação, de estabelecermos como prioridade para alcançarmos a estabilidade política e promovermos o desenvolvimento do País o regresso dos políticos que ainda se encontram no exílio, um exílio forçado, porque o seu País não lhes garante condições de segurança para o seu regresso.

Exigimos voltar a ter um País que dê credibilidade à Guiné-Bissau no plano nacional e internacional, por força da competência e da honestidade do seu Governo.

Exigimos que os grandes da nossa terra, tal como os irmãos exilados, vivam no meio dos seus.

Exigimos devolver a esperança ao povo da Guiné-Bissau, mostrando-lhe que o desenvolvimento é possível e que a Paz nasce do progresso.
Com o objetivo de serem criadas condições, a nível nacional, que garantam um quadro de absoluta segurança ao regresso dessas personalidades ao seu País, ao convívio com os seus concidadãos, foi criado o Movimento Nacional Cívico “Nô Djunta Mom pa Fidjus de Thom riba Cassa”, congregando os principais pilares da sociedade: elementos da sociedade civil organizada, entidades religiosas, partidos políticos e líderes tradicionais e, naturalmente, cidadãos em nome individual, no País, ou na diáspora, que queiram associar-se ao Movimento.

Porém, aquele objetivo vai mais além.

Pretende, de imediato, a recolha de 50.000 assinaturas de cidadãos que, assumindo o compromisso de acolhimento e de proteção desses políticos no exílio, consigam, por sua vez, junto dos Órgãos da soberania da Guiné-Bissau igual responsabilidade perante não só os subscritores do da petição pública, como perante todo os guineenses e a comunidade internacional.

E é esta a razão de estarmos reunidos hoje nesta sala para procedermos ao lançamento solene da petição pública e a consequente recolha de assinaturas pelo regresso ao país dos nossos concidadãos ainda no exílio.

Assenta numa ação conjunta de sensibilização da população para a existência dos exilados políticos e para o seu regresso ao seu País, num ambiente seguro e de paz.

Dedicar-se-á a criar as condições indispensáveis à necessária, à urgente reconciliação nacional, de modo a que todos digamos basta à instabilidade e à arbitrariedade e nos lancemos na construção de uma sociedade justa e igualitária que faça da Guiné-Bissau o país visionado por Amílcar Cabral!

Meus Amigos,
Caros Camaradas,

Nada vos peço, apenas que ajam com um sentimento de tolerância e de justiça.

Atentem a Nelson Mandela, quando afirmava que “ser pela liberdade não é apenas tirar as correntes de alguém, mas viver de forma que respeite e melhore a liberdade dos outros”.

Vamos todos contribuir para a construção de um País democrático, tolerante, em desenvolvimento e aberto ao mundo.
Vamos todos contribuir para a construção de um Estado responsável, seguro, credível e respeitado, um Estado cujo desenvolvimento assente na paz, na justiça social, no respeito de todos e de cada um.

Vamos todos contribuir para a construção de uma realidade guineense que acolha o pensamento de Amílcar Cabral, quando dizia que “O importante não é sermos fortes, é sentirmo-nos fortes”.

Essa força vai-se buscar aos valores que temos dentro de nós, de paz, liberdade e fraternidade.

Para finalizar, seja-me permitido em nome do Movimento Nacional Cívico “Nô Djunta com pa fidjus di Tchom riba cassa” declarar aberta a campanha nacional de recolha de assinaturas para a petição pública pelo regresso dos cidadãos guineenses ainda no exilio, nomeadamente Carlos Gomes Junior, Francisco José Fadul e Iancuba Djola Injai.

A referida campanha decorrerá de 5 de Janeiro à 31 de Março de 2017 em todo o território nacional e na diáspora guineense espalhado pelo mundo.
Bem-haja.